domingo, 13 de julho de 2014

‘Uma branca sombra pálida’ e um comentário fotográfico

Então, vamos falar de Literatura? Uma coisa que eu amo é fazer comentários fotográficos de textos literários e este aqui eu fiz após ler o conto “Uma Branca sombra pálida” de Lygia Fagundes Telles.
O conto se passa no ambiente bucólico de um cemitério, todos os outros ambientes mencionados estão apenas na lembrança da voz que narra o conto. Trata-se da exposição confidencial de uma mãe que deposita rosas brancas sobre o túmulo da filha suicida,  portanto não é possível saber, de fato, quais as reais feições emocionais e afetivas dos outros poucos personagens mencionados pela narradora já que o ponto de vista é estritamente unilateral.

O texto fala da sexualidade de uma moça por meio dos olhos e das palavras de sua mãe. Trata também da descoberta da sexualidade dessa mãe por meio dos confrontos que ela tem com sua filha. E toda essa movimentação só acontece por conta da presença de uma outra personagem feminina chamada Oriana. Ao que diz respeito à Onomástica, o nome Oriana significa “garota de ouro”, o que nos remete ao valor que essa moça tem no decorrer da história e, mais ainda, à sua cor. Sim, à sua cor!

Esse texto de Lygia Fagundes Telles é repleto de elementos que remetem o leitos à cor branca, a começar pelo título (Uma branca sombra pálida). Entre esses elementos podemos notar a fumaça branca do cigarro, as asas prateadas da borboleta, a xícara de leite, as paredes brancas do quarto de Gina (a filha)... E Oriana aparece como o único ponto de cor e contraste nesse plano branquelo, mais ainda quando deposita flores vermelhas sobre o túmulo de Gina, enquanto a mãe deposita somente flores brancas.



[...]  Ela com a sua mágoa e eu com a minha impaciência, ah, a mentira das superfícies arrumadas escondendo lá no fundo a desordem, o avesso dessa ordem.Acendo outro cigarro. Comecei a fumar deste jeito o dia em que Oriana esqueceu o maço de cigarro no quarto de Gina, experimentei um, era bem mais forte do que aqueles que eu fumava meio espaçadamente. Enquanto fui ouvindo os discos, não parei até esvaziar o maço. Então fiquei ali quieta, sentada no chão do quarto, em meio das almofadas onde elas estiveram e sentindo ainda no ar aquele indefinível cheiro de juventude. Uma borboleta com desenhos prateados nas asas veio agora rondar a jarra das rosas vermelhas, não quis os botões brancos, a safada. Quando se fartou das vermelhonas, fez um vôo rasteiro até aqui,  interessada no nome que mandei gravar na lousa, Gina. (...) é uma borboleta meio tonta mas curiosa: (...) Foi acidente? Não, minha bela, respondo e sopro devagar a fumaça do cigarro na sua direção, foi suicídio.(...) . A borboleta concordou enquanto se desviava da fumaça, adotei a marca de Oriana  que não é marca para borboletas (TELLES, 2009, p. 113).

Quanto à fotografia, resta novamente um incômodo: o de não ver um rosto. É proposital que vejamos apenas um contorno mal riscado na luz ofuscante. É proposital essa luz ofuscante. A ausência de sombras marcantes não é, na verdade, o que encobre a informação ao leitor,  mas sim o excesso de palidez e luz.

O conto, branquelo por si só, nos leva visualmente a um ambiente de mistério devido a uma neblina branca, que, como um véu, silencia presenças e sentimentos. Resta ao "leitor" somente a essência da atmosfera do silêncio fúnebre e de contornos mal desenhados que o levam a deduzir o corpo de uma mulher que, se envolve com um lenço vermelho durante o dia. Não há valorização de formas, texturas, expressões e olhares, mas sim da evidencia de um ambiente privado dada, principalmente, pelas cortinas e pelas roupas, supostamente pijamas.

Essa questão entre esclarecimento e ofuscamento presentes no comportamento da luz na foto é uma antítese também no conto, uma vez que, lê-se uma mãe acostumada a clareza de comportamentos bem delimitados e compreensíveis se desestrutura ao se ver diante de um cenário no qual não consegue interpretar de maneira certeira o comportamento de sua filha. A dúvida, a imprecisão, quanto ao entendimento da vida íntima de Gina entra no conto  na forma de uma cortina que impedem a mãe de ver e compreender a sexualidade da filha ao ponto de gerar conflitos e fatais perturbações. Neste momento, os elementos que remetem à brancura e à luz deixam de ser referentes ao esclarecimento e passam a fazer referência à confusão dada a perda dos contornos e definições dos acontecimentos. A composição simples da fotografia intenta mostrar um "leitor"  que enxerga a foto como os olhos da mãe. Esses olhos confusos enxergam e pensam Gina somente com a mediação de Oriana  -  um véu colorido, vermelho - não permitindo que o "leitor" tenha uma compreensão distinta dos traços de uma ou de outra menina, assim como a mãe tinha uma visão restrita pelo buraco da fechadura, não podemos, na foto, enxergar tudo com nitidez e clareza.

É muito típico da autora tratar a condição humana - e feminina - com tanta nostalgia e melancolia, e o conto não é uma exceção. Morte e vida, pureza e sexualidade são questões levantadas de uma forma raivosa pelas palavras dessa mãe que chega a convencer, um leitor desatento, de que se trata realmente de uma mulher apenas enraivecida e não de uma mãe cheia de sentimentos de tristeza e culpa.

Espero não ter estragado o suspense do conto com algum spoiler indesejado, mas sim aguçado curiosidade e despertado a vontade de vocês de ler esse e outros textos de Lygia Fagundes Telles!